O referencial teórico é a seção em que você apresenta as ideias com que vai trabalhar: os conceitos, as teorias e as pesquisas que sustentam o seu problema e que serão usados para interpretar os seus dados. É também a parte em que mais estudantes travam, porque exige ler muito e escrever um texto que não seja uma colagem de citações.
Este guia mostra um caminho em seis passos, com um exemplo que acompanha o processo do começo ao fim.
Para que serve o referencial teórico
Ele cumpre três funções no TCC:
- Definir os conceitos. Se o seu trabalho fala de "evasão escolar", o leitor precisa saber o que você entende por evasão e de que autor vem essa definição.
- Situar o trabalho. Mostra de que tradição teórica você parte e com que pesquisas anteriores dialoga.
- Fornecer as categorias de análise. Os conceitos apresentados aqui são os que você usará para ler os resultados. Um conceito que aparece no referencial e some na análise está sobrando; um conceito que surge só na análise está faltando no referencial.
Os nomes variam: referencial teórico, fundamentação teórica, marco teórico, quadro teórico. Quando o curso pede também uma revisão bibliográfica, ela trata do panorama das pesquisas sobre o tema, e o referencial, das teorias e conceitos adotados.
Passo 1: parta do problema e dos objetivos
O referencial não é um texto sobre "tudo o que existe" a respeito do assunto. Ele responde à pergunta: de que conceitos eu preciso para investigar este problema?
Exemplo que vamos acompanhar:
Tema: evasão em cursos de licenciatura a distância.
Problema: que fatores os estudantes de uma licenciatura EaD de uma universidade pública apontam como motivo para abandonar o curso no primeiro ano?
Objetivo geral: analisar os fatores associados à evasão no primeiro ano de uma licenciatura a distância, na percepção dos estudantes.
Se o problema ainda não está bem formulado, comece pelo guia de pergunta de pesquisa.
Passo 2: extraia os conceitos-chave
Sublinhe, no problema e nos objetivos, os termos que precisam de definição. No exemplo: evasão, educação a distância, permanência estudantil e licenciatura (formação de professores). Esses termos viram as subseções.
De três a cinco conceitos é o que costuma caber em um TCC. Mais do que isso, o texto fica raso ou o trabalho perde o foco.
Passo 3: encontre os autores de cada conceito
Para cada conceito, procure dois tipos de fonte:
- Autores de referência, que formularam ou consolidaram o conceito. Você os encontra nas referências que se repetem nos artigos da área, nas ementas das disciplinas e na indicação do orientador. No exemplo, Silva (2013) divide a literatura brasileira sobre evasão em dois grupos, um que busca entendê-la de maneira sistêmica e outro que trata só de universidades públicas, e remete a Tinto (1993) ao discutir estratégias para contê-la. Um autor que reaparece assim, nas referências de vários artigos da área, é um bom candidato a leitura no original.
- Pesquisas recentes, de preferência brasileiras e próximas do seu contexto, que aplicam, testam ou criticam o conceito. Busque no SciELO, no Portal de Periódicos da CAPES e na BDTD, que reúne teses e dissertações.
Leia os autores de referência no original sempre que possível. Conhecer um clássico só pelo que outro autor disse dele obriga a usar apud e enfraquece a seção.
Passo 4: leia e fiche com o problema em mãos
De cada texto, registre a referência completa, a definição do conceito (com a página), os argumentos centrais, as críticas a outros autores e a sua avaliação sobre a utilidade daquilo para o seu trabalho. Esse registro é o fichamento.
Separe visualmente, nas anotações, o que é transcrição literal do que é paráfrase. É a confusão entre os dois, semanas depois, que gera plágio involuntário.
Passo 5: monte a estrutura antes de escrever
Organize as subseções do mais geral para o mais próximo do seu objeto, o chamado "funil". No exemplo:
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Evasão no ensino superior: conceitos e modelos explicativos
2.2 Evasão e permanência na educação a distância
2.3 As licenciaturas a distância nas universidades públicas brasileiras
2.4 Fatores de evasão no primeiro ano: síntese para a análise
A última subseção é a mais importante e a mais esquecida: ela reúne, em um quadro ou em poucos parágrafos, as categorias que você vai usar na análise (no exemplo: fatores acadêmicos, institucionais, tecnológicos e pessoais). É a ponte entre a teoria e os seus dados.
Para cada subseção, escreva em uma linha o que ela precisa demonstrar. Se você não consegue dizer, ainda falta leitura.
Passo 6: escreva dialogando com os autores
Cada parágrafo tem uma ideia, e essa ideia é apresentada por você. As citações entram para definir, sustentar ou contrapor. Um esqueleto que funciona:
- frase-tópico, com a sua afirmação;
- definição ou evidência de um autor;
- outro autor que concorda, amplia ou diverge;
- fechamento, ligando a ideia ao seu problema.
Compare:
Colagem: Silva Filho et al. (2007) estudaram a evasão com dados oficiais. Baggi e Lopes (2011) dizem que a evasão é um fenômeno complexo. Branco, Conte e Habowski (2020) trataram da evasão na educação a distância.
Diálogo: A evasão no ensino superior brasileiro é acompanhada, no plano nacional, por índices calculados a partir de dados oficiais, que permitem comparar regiões e tipos de instituição (Silva Filho et al., 2007). Essa leitura agregada convive com outra, que trata a evasão como fenômeno complexo, inseparável do percurso escolar anterior do estudante e do modo como a instituição se avalia (Baggi; Lopes, 2011). Na educação a distância, o mapeamento de teses e dissertações mostra que as causas são frequentemente atribuídas ao próprio estudante, e não à instituição formadora (Branco; Conte; Habowski, 2020). Como este trabalho investiga a percepção de quem deixou uma licenciatura a distância, adota-se essa segunda perspectiva, que trata a evasão como resultado de uma relação, e não de uma característica do aluno.
Na segunda versão há uma tese, as fontes são comparadas e o parágrafo termina com uma decisão que serve ao trabalho. Esse último movimento, o de dizer o que você adota e por quê, é o que transforma uma revisão em referencial. As obras citadas são reais e estão nas fontes consultadas.
Conectivos que ajudam a marcar a relação entre autores: na mesma direção, de forma complementar, em contraponto, ao passo que, essa leitura é questionada por.
Citações no padrão ABNT
- Citação indireta: (Baggi; Lopes, 2011) ou Baggi e Lopes (2011). Página opcional.
- Citação direta de até três linhas: entre aspas, com página. Com mais de três linhas: bloco recuado, letra menor, sem aspas.
- Desde a NBR 10520:2023, o sobrenome vai só com a inicial maiúscula, dentro e fora dos parênteses.
- Toda obra citada entra nas referências, no formato da NBR 6023:2025.
Os detalhes estão nos guias de citação direta e indireta e das normas ABNT.
Erros mais comuns
- Colcha de retalhos: citações em sequência, sem voz própria.
- Referencial enciclopédico: a história completa do tema, desde a Antiguidade, sem relação com o problema.
- Conceito sem definição, ou definido por dicionário em vez de autor da área.
- Um autor só por conceito, ou só manuais e sites.
- Apud em excesso.
- Falta da subseção de síntese, e uma análise de resultados que não retoma a teoria.
- Fontes citadas que não estão nas referências, ou o contrário.
Checklist
- Cada conceito do problema e dos objetivos tem uma subseção ou um trecho que o define.
- Cada definição vem de um autor da área, com citação.
- Há autores de referência e pesquisas recentes, incluindo produção brasileira.
- As subseções vão do geral ao específico.
- Cada parágrafo começa com uma afirmação sua.
- As divergências entre autores aparecem, e você diz que posição adota.
- A seção termina com as categorias que serão usadas na análise.
- Citações e referências estão no padrão ABNT de 2023 e 2025.
Fontes consultadas
- BAGGI, Cristiane Aparecida dos Santos; LOPES, Doraci Alves. Evasão e avaliação institucional no ensino superior: uma discussão bibliográfica. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior, Campinas, v. 16, n. 2, p. 355-374, jul. 2011. DOI: https://doi.org/10.1590/S1414-40772011000200007.
- BRANCO, Lilian Soares Alves; CONTE, Elaine; HABOWSKI, Adilson Cristiano. Evasão na educação a distância: pontos e contrapontos à problemática. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior, Campinas, v. 25, n. 1, p. 132-154, abr. 2020. DOI: https://doi.org/10.1590/S1414-40772020000100008.
- SILVA, Glauco Peres da. Análise de evasão no ensino superior: uma proposta de diagnóstico de seus determinantes. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior, Campinas, v. 18, n. 2, p. 311-333, jul. 2013. DOI: https://doi.org/10.1590/S1414-40772013000200005.
- SILVA FILHO, Roberto Leal Lobo e; MOTEJUNAS, Paulo Roberto; HIPÓLITO, Oscar; LOBO, Maria Beatriz de Carvalho Melo. A evasão no ensino superior brasileiro. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 37, n. 132, p. 641-659, dez. 2007. DOI: https://doi.org/10.1590/S0100-15742007000300007.
- PRODANOV, Cleber Cristiano; FREITAS, Ernani Cesar de. Metodologia do trabalho científico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2. ed. Novo Hamburgo: Feevale, 2013. E-book. Acesso em: 21 set. 2026.
- UNIVERSIDADE FEDERAL DO ABC. Sistema de Bibliotecas. Guia de normalização de trabalhos acadêmicos. Santo André: UFABC, 2026.
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 14724: informação e documentação: trabalhos acadêmicos: apresentação. 4. ed. Rio de Janeiro: ABNT, 2024.

