A revisão bibliográfica é a parte do trabalho em que você mostra que conhece a conversa acadêmica sobre o seu tema: o que já se pesquisou, com quais resultados, onde os autores discordam e o que ainda não foi respondido. É ela que sustenta a relevância do seu problema de pesquisa.
Este guia explica o conceito, os tipos de revisão e um processo em seis etapas, com as bases de dados usadas no Brasil.
O que é (e o que não é)
Três termos aparecem misturados nos manuais e nas orientações:
| Termo | O que é |
|---|---|
| Revisão bibliográfica ou de literatura | Levantamento e análise crítica das publicações sobre o tema. Responde: o que já se sabe? |
| Referencial teórico | Os conceitos e as teorias que você adota para analisar o seu objeto. Responde: com que lentes vou olhar? |
| Pesquisa bibliográfica | Um tipo de pesquisa, elaborada a partir de material já publicado, em que as publicações são a fonte dos dados (Prodanov; Freitas, 2013, p. 54). |
Em muitos TCCs, revisão e referencial teórico ficam na mesma seção. A diferença importa na escrita: a revisão mapeia o campo; o referencial escolhe, dentro dele, os conceitos com que você vai trabalhar.
Uma revisão não é uma sequência de resumos ("Fulano diz... Beltrano diz..."). É um texto argumentativo, organizado por temas, em que você compara, agrupa e avalia as fontes.
Tipos de revisão
| Tipo | Característica | Quando se usa |
|---|---|---|
| Narrativa | Seleção e análise mais livres, sem protocolo rígido de busca | Contextualização do tema em TCCs, dissertações e teses |
| Integrativa | Busca e seleção com critérios explícitos; reúne estudos de métodos diferentes | TCCs e dissertações em saúde e enfermagem; síntese para a prática |
| Sistemática | Protocolo definido antes da busca, reprodutível, com avaliação da qualidade dos estudos; pode incluir meta-análise | Responder a uma pergunta específica com toda a evidência disponível |
| De escopo | Mapeia a extensão e o tipo de evidência sobre um tema amplo | Temas novos ou dispersos, antes de uma revisão sistemática |
As revisões sistemáticas e de escopo costumam ser relatadas de acordo com a declaração PRISMA (na versão de 2020) e sua extensão para revisões de escopo, e o protocolo pode ser registrado em bases como o PROSPERO. Quando a revisão é o método do TCC, e não só uma seção dele, o tipo escolhido e os critérios precisam estar descritos na metodologia.
Como fazer: seis etapas
1. Delimite a pergunta
"Educação inclusiva" é um assunto; não orienta uma busca. "Quais estratégias de ensino de matemática para alunos com deficiência visual aparecem nas pesquisas brasileiras de 2015 a 2025?" orienta. Uma boa pergunta define o fenômeno, o contexto e o recorte. Em saúde, é comum estruturá-la com o acrônimo PICO (população, intervenção, comparação e desfecho).
Se a pergunta ainda está vaga, veja o guia sobre como escrever a pergunta de pesquisa.
2. Defina palavras-chave e bases
Liste os termos centrais, seus sinônimos e as traduções para o inglês e, se fizer sentido, o espanhol. Em saúde, consulte os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH) para usar o vocabulário controlado das bases.
Combine os termos com operadores booleanos:
("deficiência visual" OR cegueira OR "baixa visão") AND ("ensino de matemática" OR "educação matemática") AND (inclusão OR "educação inclusiva")
Bases mais usadas por estudantes brasileiros:
- SciELO: periódicos de acesso aberto do Brasil e da América Latina.
- Portal de Periódicos da CAPES: reúne bases assinadas; o acesso completo é feito pela rede da universidade ou pelo login CAFe.
- BDTD (Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, do IBICT) e Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES: o que os programas de pós-graduação já produziram sobre o tema.
- Oasisbr: portal do IBICT que reúne a produção científica brasileira em acesso aberto.
- BVS/LILACS: literatura em saúde da América Latina e do Caribe.
- Google Acadêmico: útil para uma primeira varredura e para rastrear quem citou um texto; menos preciso nos filtros.
- Scopus, Web of Science, PubMed, ERIC: bases internacionais, conforme a área.
A biblioteca da sua universidade oferece treinamento nessas bases, e vale pedir ajuda ao bibliotecário para montar a estratégia de busca.
3. Busque e registre o que fez
Anote, para cada base, a expressão de busca, os filtros (período, idioma, tipo de documento), a data e o número de resultados. Em revisões integrativas e sistemáticas esse registro é obrigatório; nas narrativas, ele evita refazer buscas e permite descrever o percurso na metodologia.
Exporte os resultados para um gerenciador de referências ou uma planilha e elimine os duplicados.
4. Selecione com critérios
Defina antes o que entra e o que fica de fora: período, idioma, tipo de estudo, população, acesso ao texto completo. Depois, selecione em duas passadas: primeiro por título e resumo, depois pela leitura do texto completo.
Avalie também a qualidade da fonte. Artigos de periódicos revisados por pares, livros de editoras acadêmicas, teses e dissertações são a base. Blogs, sites sem autoria e apostilas servem, no máximo, para chegar às fontes originais.
5. Leia e fiche
Leia com a pergunta em mãos e registre, de cada texto: referência completa, objetivo, método, principais resultados, conceitos úteis e trechos que talvez você cite, sempre com a página. Esse registro é o fichamento, e é ele que evita o plágio acidental, porque separa o que é citação literal do que é paráfrase sua.
Uma matriz de síntese ajuda a enxergar o conjunto:
| Referência | Objetivo | Método | Principais resultados | Tema |
|---|---|---|---|---|
| Autor (ano) | ... | Estudo de caso, 2 escolas | ... | Materiais táteis |
| Autor (ano) | ... | Survey, 120 professores | ... | Formação docente |
Ordenar a matriz pela coluna "tema" mostra quais assuntos têm muita pesquisa, quais têm pouca e onde os resultados se contradizem. Esses pontos viram a estrutura do seu texto e indicam as lacunas de pesquisa.
6. Escreva por temas
Organize a revisão em subseções temáticas, do mais geral para o mais próximo do seu problema. Em cada parágrafo, a frase principal é uma afirmação sua sobre o conjunto das fontes, e as citações a sustentam.
Compare as duas versões:
Versão resumo: Silva Filho et al. (2007) estudaram a evasão com dados oficiais. Baggi e Lopes (2011) fizeram um levantamento na BDTD. Branco, Conte e Habowski (2020) mapearam teses e dissertações sobre a EaD.
Versão síntese: A evasão no ensino superior brasileiro é medida há tempo com dados oficiais, que permitem comparações regionais e internacionais (Silva Filho et al., 2007), mas o que a produção acadêmica acumula é sobretudo levantamento: tanto a revisão de Baggi e Lopes (2011), sobre evasão e avaliação institucional, quanto a de Branco, Conte e Habowski (2020), sobre a educação a distância, partem das teses e dissertações depositadas na BDTD. Baggi e Lopes concluem que a relação entre evasão e avaliação institucional continua pouco estudada; Branco, Conte e Habowski registram a tendência de atribuir as causas ao estudante, e não à instituição formadora. As duas leituras convergem para um ângulo pouco explorado: o que as próprias instituições fazem com o que já sabem.
A segunda versão agrupa, compara e conclui; é isso que a banca procura. As três obras citadas são reais e estão nas fontes consultadas.
Feche a revisão com um parágrafo que retome o que o campo já sabe, aponte a lacuna e ligue essa lacuna ao seu objetivo.
Citações e referências
Todas as ideias de outros autores levam citação, direta ou indireta, no padrão da NBR 10520:2023: (Baggi; Lopes, 2011) ou Baggi e Lopes (2011, p. 370). A lista de referências segue a NBR 6023:2025. Veja os guias de citação direta e indireta e das normas ABNT.
Evite o apud como hábito. Se um autor é central para a sua revisão, leia-o no original.
Erros mais comuns
- Revisão em forma de lista, um parágrafo por autor, sem comparação.
- Tema amplo demais, que gera uma revisão rasa.
- Só livros-texto e sites, sem artigos de periódicos.
- Só fontes em português quando o debate da área acontece também em inglês.
- Ignorar as teses e dissertações brasileiras sobre o tema, disponíveis na BDTD.
- Parafrasear trocando sinônimos. Reescreva a ideia a partir do que entendeu, e cite.
- Revisão desligada do resto do trabalho. O que você discutiu na revisão precisa voltar na análise dos resultados.
Fontes consultadas
- BAGGI, Cristiane Aparecida dos Santos; LOPES, Doraci Alves. Evasão e avaliação institucional no ensino superior: uma discussão bibliográfica. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior, Campinas, v. 16, n. 2, p. 355-374, jul. 2011. DOI: https://doi.org/10.1590/S1414-40772011000200007.
- BRANCO, Lilian Soares Alves; CONTE, Elaine; HABOWSKI, Adilson Cristiano. Evasão na educação a distância: pontos e contrapontos à problemática. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior, Campinas, v. 25, n. 1, p. 132-154, abr. 2020. DOI: https://doi.org/10.1590/S1414-40772020000100008.
- PRODANOV, Cleber Cristiano; FREITAS, Ernani Cesar de. Metodologia do trabalho científico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2. ed. Novo Hamburgo: Feevale, 2013. E-book. Acesso em: 21 set. 2026.
- SILVA FILHO, Roberto Leal Lobo e; MOTEJUNAS, Paulo Roberto; HIPÓLITO, Oscar; LOBO, Maria Beatriz de Carvalho Melo. A evasão no ensino superior brasileiro. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 37, n. 132, p. 641-659, dez. 2007. DOI: https://doi.org/10.1590/S0100-15742007000300007.
- SILVEIRA, Denise Tolfo; CÓRDOVA, Fernanda Peixoto. A pesquisa científica. In: GERHARDT, Tatiana Engel; SILVEIRA, Denise Tolfo (org.). Métodos de pesquisa. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009. p. 33-44. Acesso em: 21 set. 2026.
- PAGE, Matthew J. et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ, London, v. 372, n71, 2021. DOI: https://doi.org/10.1136/bmj.n71.
- UNIVERSIDADE FEDERAL DO ABC. Sistema de Bibliotecas. Guia de normalização de trabalhos acadêmicos. Santo André: UFABC, 2026.

